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Simpatia das 7 às 17


Bandeira abacate, fotografia de Cássia Batista, 2021.


Talvez a cena que mais tenha me tocado nesse período em BH não necessariamente tem a ver com a pandemia. Finalmente algo que não tenha ligação direta com as palavras corona, doença, números, pandemia e quarentena. Comecei a fazer autoescola e trabalhar num lugar do lado da autoescola. E durante esse período que passo indo e voltando diariamente (duplamente) do trajeto de 15 minutinhos da minha casa, sempre esbarro com Edmilson. Edmilson é um vendedor. E, para ser um bom vendedor -o que ele sem dúvidas é- é necessário ser simpático, falante até. Edmilson mora longe de onde vende balas e simpatia no sinal, mas, ainda assim, é capaz de dar bom dia pra todo mundo que passe por ele.


Frequentemente me pego pensando sobre o que mudou ou não de décadas pra cá. É claro que nunca terei uma afirmativa certa em relação a isso porque nem 2 décadas tenho completas ainda. Porém, o que ouço muito dizer é que a cordialidade e pessoalidade foram embora com o passar dos anos, e que isso faz muita falta pra quem foi criado no esquema dos "bom dias".

Tem uma frase que já usei até como legenda clichê de foto que é a seguinte: seja a mudança que você quer ver no mundo. Na época que li isso achei o máximo! Super encorajadora e incentivadora. Com o tempo essa sentença caiu pros recônditos do meu inconsciente e voltou a aparecer nesse período do qual falo agora: Edmilson é a mudança que ele quer ver no mundo. Exala um carisma, carinho, tato e educação tamanhos que é simplesmente impossível passar por ele e não sorrir depois. Bem o tipo de pessoa que te dá esperança na humanidade.


Esse texto de fato é um relato de uma menina muito privilegiada que começa agora a descobrir e entender mais do mundo. No início do ano passado fui fazer panfletagem numa avenida por dois dias apenas. E foram dois dias, duas manhãs, para ser mais precisa, que andei por volta de uns 10km. No final do segundo dia, já estava exausta e tendo a certeza de que aquilo definitivamente não era um trabalho que almejaria. Sol, sujeira, cansaço, assédio, grosseria. A questão é que quando cheguei no local, estava determinada a sorrir e cumprimentar a todos, mas na metade do expediente já não soltava muito mais que um baixo "obrigada" acompanhado de um aperto nos olhos. Os motoristas então nem se fala. E essa menina privilegiada aqui que tem admiração pelo Edmilson quando pensa que ele, de segunda a sexta, solta simpatia aos 7 ventos, das 7 as 17.


Eu brigo com ele porque ele não passa protetor solar sempre. Depois que comecei a lembrá-lo de reaplicar a cada 3 horas, toda vez que passo, indo ou voltando, ele me agradece e fala todo orgulhoso que se lembrou do protetor. Se esquece, diz que no dia seguinte sem falta ele lembra. Há poucos dias saí pra correr e já raiava o sol de 11 da manhã. Ele veio sorridente, me mostrou o celular e falou "tá vendo aqui? Faltam 10 pras 10. Passei protetor as 7 e agora to esperando pra passar de novo!", cheguei e falei "Ô Edmilson você não acredita. Eu que te encho o saco por causa do protetor e hoje fui eu que esqueci!". Aí ele veio todo solicito e insistiu pra que eu usasse o dele também, que toda vez que precisar eu poderia abrir a bolsa dele e pegar um pouco pra mim. Ele disse que o esquema do dia tava sendo de eu cuidar dele e ele cuidar de mim. Poisé, acho que no final do dia, a meta de todos nós deveria ser essa.


Ana Rita Silva, 19 anos, Belo Horizonte, aluna do 1º período de Psicologia da UFSJ [16 de fevereiro de 2021].


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